Stranger Things e a nostalgia da nostalgia
E ainda, análises rápidas sobre Sonhos de Trem, Depois da Caçada e A Cadeira
Stranger Things
Não, eu não terminei de ver a quinta e derradeira temporada de Stranger Things. E mesmo que tivesse visto os quatro episódios disponibilizados pela Netflix, não teria como dar um veredito, já que haverá ainda uma segunda parte, com mais três episódios, a ser lançada no Natal. E o season finale na noite de Ano Novo. Mas bateu uma vontade danada de falar do primeiro episódio, pela sensação esquisita que me deu quando finalmente conseguimos alinhar as agendas dos três moradores deste lar. Stranger Things foi um título que comecei ver com a família, e não seria agora que eu veria sem a esposa ou o filho. Ao voltar à série, tive dois sentimentos, sendo o primeiro de estranhamento, por dar de cara com os atores já bem crescidos. Afinal, houve um hiato de mais de três anos entre a quarta e a quinta temporadas. A atriz que vive Eleven, personagem mais badalado da trama (não sei se dá pra cravar que é a protagonista), Millie Bobby Brown, é a que parece mais crescida. É uma adulta daquelas que acham importante fazer preenchimento nos lábios e maçãs do rosto. Impossível não achar essas coisas estranhas, com o perdão do trocadilho.
Mas e a trama? Bom, depois de três anos, já não ligava mais pra história, devo confessar. E quando fui assistir, foi mais por consideração ao passado do que realmente uma aflição para conferir o desenlace da saga. E eis o segundo e irônico sentimento que pintou: nostalgia. Estou ainda vendo uma série que investe na nostalgia dos anos 80 apenas por uma nostalgia do ano 2019. É a nostalgia da nostalgia. E sei que mesmo se eu não me empolgar com os próximos episódios, continuarei vendo até o fim. Não se investe tanto tempo em uma série para abandonar antes do desfecho. Ainda mais na era de exaltação da cultura pop e do FOMO. Pensei em voltar no ano que vem aqui para falar se valeu a pena, mas nem sei se faz sentido. Porque quem curte Stranger Things já vai ter visto tudo. E quem não viu não vai desistir só porque não foi do meu agrado. Há muita pressão para nós vítimas do entretenimento de massa para chegarmos à linha de chegada.
Sonhos de Trem - Nem só de fenômenos pop vive a Netflix. A empresa de streaming adquiriu os direitos de lançamento desse filme, naquele esquema de estrear em alguns poucos cinemas americanos para se credenciar a premiações, mas deixando para fazer barulho mesmo só na chegada à plataforma. No Brasil, por exemplo, nem passou pelas salas de exibição. E talvez eu nem fosse conferir se tivesse passado. Acho que apenas uns 30% do que consumo de filmes e séries sejam dramas. É preciso muito elogio para que eu tenha certeza de que não vou me decepcionar no mergulho no gênero. Esse tinha os habituais enaltecimentos e um ingrediente a mais para me convencer: a badalação em torno da fotografia de Adolpho Veloso, um brasileiro. Realmente seu trabalho se destaca, com o uso quase total de iluminação natural. Mas o filme de Clint Bentley é tão envolvente que talvez fosse extraordinário mesmo sem a bela fotografia. Cheguei a ficar com um nó na garganta em algumas partes do filme, coisa que aconteceu também com minha esposa, no final. Choramos, claro. Não de tristeza. Sonhos de Trem, sobre um lenhador que tenta entender e aprender com as mudanças em sua existência, não é um dramalhão, não é triste. É tocante. É daqueles que tiram a carga de clichê da expressão “colocar a vida em perspectiva”. Recomendo.
Depois da Caçada - Quase fui ver este no cinema, atraído pelos nomes no elenco e na direção. Mas houve algum imprevisto no dia e abandonei a ideia. Antes de insistir, acabei lendo mais de uma opinião negativa e abandonei os planos. Quando chegou à Amazon Prime Video, achei que não custaria dar uma chance e conferir com a esposa. Realmente foi bom não ter gasto com ingressos. Não que o filme de Luca Guadagnino (Rivais e Me Chame Pelo Seu Nome) seja uma porcaria. É que sua proposta está mais em criar debate do que contar uma história com trama clara. Até curto um final aberto, mas há elementos demais no meio da história para o espectador decidir se são verdadeiros ou não. Preciso de uma dramaturgia mais sólida e prazerosa para sair satisfeito de uma trama sem saber algo no nível “Capitu traiu Bentinho?”. Eu e a esposa até discutimos em alguns momentos, discordando sobre o que tinha rolado. Só no fim realmente chegamos a um acordo de que nada ficou definido, que as pistas são colocadas só pra confundir mesmo. De qualquer forma, mesmo com alguma frustração, valeu assistir às atuações de Julia Roberts, Andrew Garfield e Ayo Edebiri no suspense psicológico sobre uma denúncia de agressão sexual em uma prestigiada universidade americana.
A Cadeira – O humor de Tim Robinson não é para qualquer um. Para saber se você curte ou não, basta assistir a I Think You Should Leave, disponível na Netflix. Lembro que quando lançada, não foi uma unanimidade na redação do programa humorístico em que eu estava escrevendo. Aqui em casa, meu filho adorou, enquanto a esposa não curtiu tanto. Mas estamos aqui para falar de A Cadeira, produzida pela HBO. Aqui Robinson é, de novo, o criador e protagonista. Só que em vez dos esquetes que o consolidaram, temos uma história mais acessível a outros públicos. Há um toque ou outro das bizarrices da outra série, mas o forte é a paranoia e a propensão do personagem principal a criar uma estranha teoria da conspiração. Sua vida entra em uma espiral de infortúnios quando ele reage mal a um acontecimento banal, depois que a cadeira em que se senta quebra e ele se espatifa no chão durante um evento em que tinha destaque. Ainda estou no terceiro dos oito episódios, e gostando muito.
Desculpem mais uma vez pela publicação da newsletter num sábado, em vez de quinta ou sexta, como de costume. Está sendo um mês cheio de trabalho e infelizmente tenho que priorizar as entregas dos textos que escrevo no trampo, já que dou algum valor à minha viabilidade financeira neste mundo. E por falar em grana e trabalho, a edição autoral da semana passada foi uma espécie de crônica sobre propagandas e seus antigos impactos em nossas vidas. Rolou uma quantidade de likes acima da média. Dá pra conferir aí embaixo. Semana que vem tem mais.


Confesso que minha situação em relação aos Bagulhos Estranhos é similar à sua: o sentimento de cliff hanger meio que já tinha expirado a validade e continuar ou não a história já não fazia tanta diferença para mim. Essa ansiedade pelo final aqui em casa está muito mais por conta da esposa. Mas agora, voltando a acompanhar as peripécias e altas confusões desses adolescentes com mais barba que eu, até peguei um pouco de pilha.
Quanto ao Tim Robinson, acho que já discutimos isso por aqui, também gosto daquele tipo (muito, muito) estranho de humor. Não tinha ideia dessa nova série, Vou conferir com certeza.
A gente já está no terceiro episódio e ainda não voltamos a nos empolgar com a série. Mas estou sim curioso com o que vão fazer pro final.
Me conta o que achou depois da Cadeira. Acho que vc vai curtir.